PCD – Parceiros Com Dignidade, integração é muito mais que inclusão.

*por Djalma Moraes.

Nos últimos tempos estamos passando por uma revolução tecnológica sem precedentes, isto vem causando uma grande mudança nos costumes e comportamentos, de certa forma, ampliando a capacidade de receber informações, socializando o conhecimento, mas também, disseminando práticas que tanto podem trazer benefícios, como podem provocar questionamentos. Entre elas, destacamos as ações afirmativas relativas à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

Se, por um lado, a legislação determina o percentual de pessoas a serem incluídas nas empresas, por outro, temos a falta de preparo de empresas e instituições no diálogo para que esta prática se torne corriqueira. Ao meu ver, quando se fala em inclusão, pressupõe-se que ambos os lados estão preparados para lidar com a questão, mas não é isto que acontece. O diálogo tem que deixar de ser técnico baseado na deficiência, em focar nas competências técnicas e comportamentais solicitadas, que devem estar presentes não só no candidato, mas no ambiente onde o mesmo será integrado. O que quer dizer isto?

A chegada de uma pessoa com deficiência, quer seja, congênita ou adquirida, é um grande desafio para mudança de posturas e a construção de um ambiente diferenciado, onde predomine a cooperação, a ampliação do conhecimento na busca do resultado planejado, sem que para isso, se adote uma postura paternalista, protecionista e restritiva ao potencial da pessoa integrada aos quadros da empresa. Comportamentos preconceituosos não são adequados e são a causa de muitos conflitos e frustração de ambas as partes.

Hoje, existem instituições especializadas na preparação adequada para que as pessoas assistidas por elas tenham plena condição de trabalhar e dar melhores condições de vida aos seus familiares. Um trabalho digno, em local adequado, onde as pessoas se relacionem com dignidade e respeito é o que se espera da maioria das empresas, o que nem sempre acontece. Há ainda, muita resistência e despreparo por parte de empresas de todos os portes, que se apegam somente à legislação, muitas vezes, pagando multas e sofrendo penalidades. Mas, o que é preciso para que ocorram mudanças?

  1. Mudar o discurso, é preciso ter um relacionamento mais respeitoso com as pessoas com deficiência, de forma que, ao invés de trata-los como dependentes de esmolas e comiseração, vivenciem experiências de crescimento e adaptação à uma nova forma de pensar e agir, onde o aprendizado seja a temática para ambos os lados.
  2. Parar de praticar a tal, sensibilização das empresas, pois em um país, onde 24% da população possui algum tipo de deficiência, é praticamente impossível que não tenha havido algum contato através da família, dos amigos ou mesmo na sociedade por parte de colaboradores e executivos das empresas. É, preciso encarar a realidade!
  3. O primeiro passo a ser dado deverá ser a abertura de portas de empresas e entidades para troca de experiências e conhecimentos. Apesar da importância dos laudos médicos, o mais relevante é não limitar a avaliação a somente este quesito.
  4. De uma forma geral, educar as famílias para criar seus filhos para a independência com responsabilidade, onde se possa ampliar a percepção de que se manterem atreladas ao BPC – Benefício de Proteção Continuada, no valor de um salário mínimo, que é pago aos portadores de deficiência, como forma de ajuda para as despesas de subsistência.
  5. Será preciso um movimento intenso que envolverá a sociedade como um todo, onde a educação formal seja ampliada, escolas devem ter parcerias com instituições sérias para capacitar professores e alunos no desenvolvimento e acolhimento dos estudantes deficientes que ali chegarem.
  6. Ao invés de pressionar o cumprimento da lei, criar formas de valorizar as empresas que adotarem ações informativas realistas de integração de deficientes aos seus quadros. Seria interessante se, da mesma maneira do GPTW – Great Place to Work, ou melhores empresas para se trabalhar, fosse criado e estimulada a obtenção de uma certificação de empresas aliadas dos deficientes, que poderá ser renovado, caso os indicadores sejam mantidos ou até ampliados. Indicadores estes, que podem ser, número de deficientes contratados, políticas de desenvolvimento de competências adotadas para eles, o índice de turn over, volume de promoções que receberam no decorrer do ano, nível de relacionamento entre equipe e deficientes, etc.
  7. Finalizando, uma entrevista deve ser feita com todos os envolvidos para elaboração de um relatório que irá gerar um vídeo a ser compartilhado em redes sociais especializadas, sendo que a divulgação poderia ser seguida pela realização de um grande fórum com apresentação de “cases” e premiação de empresas e instituições.

Estas são apenas partes de uma discussão que está apenas começando lembrando que, em paralelo, gradativamente, todos nós nos tornamos deficientes com o passar do tempo, nosso campo visual diminui, nossas articulações perdem a capacidade de flexão, nossa massa muscular se reduz, alterações ocorrem em nosso metabolismo, nosso apetite se altera, nossa libido muda e advém diversas outras alterações que nos impedem de fazer algumas coisas com a mesma facilidade da juventude, agora, imaginem alguém que nasce em um mundo em que as demais pessoas não estão preparadas para conviver consigo?

Finalizando, esta é uma ação que não envolve somente empresas e entidades, mas todos os que se julgam cidadãos com capacidade de fazer mudanças em mundo cada vez mais tecnológico e individualista.

*Djalma Moraes é Sócio Consultor da MQS Consultoria e Treinamento Empresarial, Diretor de Relacionamento da ABRH-SP Regional Baixada Santista, Psicólogo, coach, instrutor e consultor em RH e Empreendedorismo.